Influencer Eremita

Fragmentos do que me inspira


Quando o tempo se desmancha

No princípio era o Verbo (João 1:1)

Quando penso em espiritualidade, a imagem que me vem é a de um vão de uma porta, onde as ombreiras são nossos guias e mentores, a verga é nosso Eu superior e a soleira, onde firmamos nossos pés, nossos antepassados. Há apenas o vão sem a porta, pois é um local que podemos acessar sempre que desejarmos realmente.

Há quem tente limitar esse acesso, colocando alguma barreira, mas ao observar com um pouco mais de atenção, se percebe logo que o que parecia porta de madeira nobre e maciça, é apenas uma cortina que se desloca na menor das correntes de ar nos permitindo espiar para o outro lado.

Exausta de ser cerceada com esses artifícios, aproveitei o início do novo ano astrológico para começar minha jornada. Assim, nos primeiros vislumbres da energia do fogo, busquei, junto a sagrada medicina da floresta, passar pelo vão depois de tanto tempo parada na soleira.

Dando os primeiros passos, o que encontrei do outro lado foi a imensidão de tudo que eu sou. Vi mil versões de mim mesma, todas elas embotadas pelo excesso de autojulgamento que me acompanhava na jornada. Quase me deixei ser paralisada por ele, mas lutei e, de algum modo, o venci, pelo menos naquele momento.

Depois, dando mais alguns passos no caminho, encontrei um vale de risos e alegrias. Não sabia que podia existir em mim tanta leveza. Percebia também que estavam me passando muitas informações e eu tentava afoitamente memorizá-las. Ao mesmo tempo, eu ria do desespero de querer ter algum controle e reter completamente tudo que era mostrado. Percebi que ao tentar gravar cada miração, estava como um Orfeu, que no último momento ao olhar para trás, fez Eurídice desaparecer para sempre.

Nesse caminho estive com pessoas que amei demais em lugares que representam o centro afetivo da minha vida. Tive a consciência de que o tempo é fluido e que, em algum momento, novamente, eu estarei exatamente no mesmo lugar… na verdade, até poderia ficar ali naquele instante por quanto tempo eu quisesse, mas senti que era melhor seguir em frente. No meu coração entendi que não importava a vivacidade da minha lembrança: no passado nada de novo era possível.

Quando me permiti seguir em frente na minha jornada, tive o primeiro reencontro com meus guias. Digo reencontro pois senti que os conhecia de muitas vidas e que nessa, por não me sentir preparada, há muito tempo postergava esse momento.

Nietzsche uma vez escreveu que é preciso ter asas quando se ama o abismo. Eu não estava certa de que conseguiria sustentar todo o meu potencial de vir a ser, mas sabia que tinha chegado a um limiar onde eu mal cabia em mim mesma. Fiquei por um tempo oscilando nessa borda, pensando se deveria saltar para a escuridão da possibilidade, mas, naquele dia (e muitas vezes depois), não saltei.

A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. (João 1:5)

No fim da cerimônia, todos aparentavam estar bem, menos eu. A voz moralizadora que pensei ter combatido definitivamente, retomou seu lugar, como quem recupera um trono: com certo rancor pela minha ousadia e com a soberba de quem se sabe invencível.

Eu me sentia completamente fora de mim. Pensei que estava enlouquecendo e me culpei profundamente. Surgiu um pensamento duro: “Eu acabei com a minha vida.”

E também ali, naquele instante, em meio a autopunição exacerbada que enfrentava, surgiu a percepção que eu estava atravessando uma experiência única, que mais ninguém parecia estar vivenciando. De repente, tive a sensação avassaladora de que eu era Deus. E no mesmo instante, minha autocrítica respondeu: “Você é megalomaníaca”. Isso me fez rir e trouxe certo alívio cômico devido ao contraste entre a vastidão da sensação e o julgamento interno.

Recebi muito acolhimento, infelizmente, não de mim mesma, mas das pessoas com quem compartilhei a cerimônia. E isso, em vez de consolo, me trouxe culpa. Sentia que não tinha esse direito, que era querer demais. Precisava ser contida para não incomodar. Neste lugar de cura e verdade, essa ferida também se mostrou.

Agora percebo que essa culpa não surgia pela primeira vez, ela estava emaranhada às minhas raízes e que, como uma planta, para eu ir em direção à superfície do solo e despontar todo o meu potencial, esse sentimento teria que ser acolhido junto ao restante do que já sou. Ali, naquele broto singelo, ao ser exposto à luz da minha própria autoaceitação, se abririam as primeiras folhas.



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