
Sair do sério. Perder as fronteiras de si mesma. Soltar o que carrega, nem que seja por uma fração de segundo, e andar por aí sem peso pela primeira vez em anos. Tão leve que quase flutua, tão leve que assusta. Há uma linha distante no horizonte, de contornos indefinidos, em que sustentar se torna prisão e, então, ceder se torna virtude.
Deixar que o fogo interior queime sem medida. Ser quem realmente é e não domesticar a raiva, o desejo, o impulso bruto de existir com intensidade. Não se lapidar. Deixar que as superfícies sejam ásperas, irregulares, apenas naturais. Explodir de aflição para depois implodir de prazer. Arder até não saber mais se isso destrói ou liberta. Assistir às próprias certezas virarem cinzas e, ainda assim, continuar queimando.
Deixar a água vir sem represar, sem ter que nomear. Sentir até transbordar, até que o corpo já não dê conta de conter o que insiste em escapar. A água invade, apaga os antigos contornos e desenha novos. Dissolve o que parecia inteiro e, para isso, só precisa de tempo. Parece feitiço. E, quando se vê, já não há margem para retornar.
E então a terra encharca de água, cede, tudo vira lama. O chão que antes era a base agora engole. Há o peso das palavras não ditas e das histórias não vividas. O campo se torna denso, impossível de atravessar sem se sujar. Os pés afundam, o corpo pesa, as raízes apodrecem. Permanecer nessas condições traz a sentença de morrer lentamente.
O ar que deveria aliviar nos faz ofegar, às vezes, sufocar. Pensamentos que não cessam, ideias que se repetem até vir um aperto no peito. O corpo se tensiona e se desmancha. Leva-se tudo: foco, forma e identidade. E, por um instante, a existência finda.
Tudo em excesso, ultrapassando os limites antes conhecidos. E, no exagero, no descontrole, no transbordar-se a si mesma, algo desponta: a verdade nua e crua do que se quer.
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