
Os que estão enterrados sentem o peso de cada grão da terra sobre eles. Quanto mais rasa a cova, menos peso, porém, qualquer movimento de vida, é sentido e atrapalha o descanso.
A pobreza, até ali se reflete. As lápides de cova rasa e com caixões sem adornos, fazem com que o corpo se deteriore mais rápido. Assim, os ricos permanecem grudados a carne por mais tempo. Eles são assim sobre a terra também, agarrados a matéria.
Como indigente, não tinha nada para carregar, então foi leve minha passagem. Passagem essa que é gratuita, graças a Deus, senão, veríamos filas de milhões de pessoas sem o dinheiro para pagamento desse pedágio em uma estrada sem retorno. No meu caso, mal pude perceber a morte se aproximando, me parecia tudo a mesma miséria lá e cá.
Ninguém pensa sobre onde se pisa, mas todos, todos os dias, pisam sobre os ossos de seus antepassados. Não deveriam se esquecer disso nunca, pois se seguem erguidos, são por nós dando a sustentação aqui em baixo.
A vida se esvai em pouco tempo, a morte não, é eterna. Ontem vivo, hoje e para sempre, morto. Ao ser destituído do invólucro da carne, ficam apenas os ossos. Esses, um pouco mais eternos que a carne, depois também se vão. Fica apenas o que realmente se é, a essência que precisa encontrar o caminho para fora da cova. Mas isso é tudo relativo, pode se levar dias ou séculos. Há tempo e paciência suficientes para aguardar esse processo.
Eu apenas observo. Sem posses, também sem pensamentos próprios. O que é bom, pois evita o julgamento, mas perco também a sentença que dá o encaminhamento.
Sou um andarilho sem rumo, assim como era em vida. Antes, acreditava que caminhava para algum lugar, agora percebo que não e aceito isso. Vi muitas coisas acontecerem, sem ter para quem contar. Ouvi segredos e confissões, e assim conheci o que há por trás dos corações humanos.
Mesmo o ouro, não brilha debaixo da terra, seu habitat natural, porque a terra não faz distinções. Recebe o carrasco e a vítima da mesma forma. É essa, afinal, a misericórdia divina.
Deixe um comentário