
No fim de 2023, atingi um dos marcos da vida adulta: sair da casa dos meus pais para morar sozinha. Algum tempo depois, pelas coincidências criadas através dos algoritmos, chegou até mim o ditado: “Para se conhecer uma pessoa é preciso comer um saco de sal com ela”. Fiquei encantada com essa sabedoria popular e pensei que, quando morasse com alguém, gostaria de fazer esse experimento e ver quanto tempo seria necessário para, de fato, conhecê-lo.
Porém, logo depois, me veio à mente: e se eu comesse um saco de sal morando sozinha, poderia dizer que conheci a mim mesma? E teria algo mais transformador do que conhecer a si mesmo?
Não podia ser à toa que o aforismo “Conhece-te a ti mesmo” (nosce te ipsum) estava registrado no pórtico do templo de Apolo, em Delfos, na Grécia, há séculos.
Algum tempo se passou desde então (697 dias, para ser precisa) e, exatamente hoje, finalizei meu primeiro pacote de sal sozinha. Na hora, me lembrei do vídeo — o que significa que, pelo menos, algum conteúdo estou retendo das minhas horas on-line — e então resolvi refletir sobre o que mudou nesse período.
Na superfície, nada: mesmíssimo emprego, endereço e aparência. Mas, internamente, já não consigo me ver na minha versão de dois anos atrás. De lá para cá, assumi fielmente o compromisso de conhecer a mim mesma, não como quem busca algo para consertar, mas como quem se contempla.
Fiz psicoterapia, terapias holísticas, meditações e cursos voltados ao autoconhecimento. Fui a centros espíritas, umbandistas e espiritualistas. Li muito, sobretudo filosofia, biografias e autores de diferentes culturas.
Fiz tudo isso buscando entender quem eu era e onde eu gostaria de estar. Percebi que não me conhecia; depois, vi coisas em mim que me entristeceram — como um Narciso ao contrário, que, ao se admirar nas águas, não se apaixona por si mesmo, mas se detesta.
Tentei me modificar, mas depois percebi que essas águas não refletiam minha imagem exata, a distorcia. Deixei de olhar para a superfície e mergulhei. Logo, fiz as pazes comigo mesma e me acolhi. Rubem Alves uma vez disse: “Só estou onde estou porque tudo o que planejei deu errado”. Entendi que, embora eu tenha percorrido um caminho tortuoso e inautêntico, em uma visão um tanto quanto estoica, havia algo de belo naquilo tudo.
Então, como na música do Legião Urbana, “aos vinte e nove, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver…”, me sinto em casa em mim mesma, celebrando minha essência. Digo isso não como quem coloca um ponto final encerrando um texto, pois sei que não há ponto de chegada nesse caminho que estou trilhando.
Aliás, ao escrever aqui, fui pesquisar se o ditado sobre o sal tinha alguma origem específica e vi, em um blog, que a frase faz referência aos sacos de 50 a 100 kg, o que achei ainda mais conveniente com o desafio que é conhecer a si mesmo.
Se foram necessários dois anos para consumir 1 kg de sal, posso dizer que levarei minha vida inteira consumindo o restante. E é o que pretendo fazer: ir desemaranhando cada detalhe sobre quem eu sou enquanto estiver viva.
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