


Não consigo me livrar da sensação de como era brilhante meu passado. Um brilho amarelado pelas luzes incandescentes que havia em quase todos os lugares, mas, ainda assim, um brilho.
Uma sala pequena com uma estante enorme, cheia de bibelôs, CDs, DVDs e souvenirs de viagem e, no centro dela, uma TV ligada na MTV durante toda a noite.
Um apartamento de dois quartos onde os adolescentes se reuniam tocando violão e a sensação de fascínio por algo que, ainda hoje, não sei nomear.
Os dias eram mais longos, pois eu não estava pensando no amanhã; estava ocupada demais vivendo no presente. Em retrospectiva, na minha mente, parece que eram sempre férias de verão no entardecer do dia.
Havia um senso de identidade, como se não tivesse mais nada para conhecer sobre mim mesma. Eu sabia plenamente quem eu era e manifestava isso através de paredes cheias de pôsteres de bandas que eu gostava na época, maquiagens, fotos e um cabelo com mechas coloridas. Tudo tão Y2K.
Às vezes, o passado se torna mais vívido que o presente e surge, de repente, uma fenda no tempo onde posso sentir essa realidade pairando no ar, como se, ao estender minhas mãos, eu pudesse tocar essa sensação onírica e ser transportada para essa época.
De vez em quando, aceito o risco. Mergulho nessa brecha e reencontro a mim mesma duas décadas atrás. O deslumbramento reaparece como se nunca tivesse tido motivo para não senti-lo.
Depois, de volta ao presente, tudo parece mais opaco, os dias são todos iguais e os anos passam rápido. Não há brilho. Qualquer dia desses, talvez eu atravesse esse limiar e não volte mais.
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