
Gastronostalgia foi o termo informal que encontrei tentando achar um meio de falar sobre o desejo evocado por uma comida que encontramos por descrição literária. Expandindo a busca para outros idiomas, descobri, em japonês, a expressão shokuyoku wo sosoru (食欲をそそる), muito utilizada para comidas mostradas em animes, mangás e filmes que fazem as pessoas quererem comê-las.
A primeira vez que a literatura me provocou essa sensação foi quando li O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett, e me deparei com a descrição das batatas que não só eram plantadas por Dickson, como também, nessa cena, foram assadas nas cinzas de uma pequena fogueira, com sal, ervas e manteiga fresca, por ele. Junto de seus amigos, Colin e Mary, os três as comem, representando, além de uma refeição deliciosa, a atmosfera de acolhimento que trouxe Colin de volta à vida.
Mudando o cenário, minha memória me traz a lembrança do livro Por isso a gente acabou, de Daniel Handler, e fico impressionada com a capacidade da mente de reter certos detalhes com tanta importância. Depois de tantos anos, o que ficou gravado da história para mim foi o café Federico’s, que, embora fosse tomado de maneira recorrente por Min, a protagonista, me parecia muito mais especial quando tomado no Bazar Tip Top, que abria somente aos sábados, das sete e meia às nove da manhã. Ainda hoje, como as batatas assadas de Dickson, a ideia me traz uma atmosfera mágica, indo contra o paradigma capitalista de 24/7.
Também lembro do conto A Cesta de Natal da Tia Cyrilla, de Lucy Maud Montgomery. Na história, após uma nevasca bloquear os trilhos de um trem por quilômetros, em plena véspera de Natal, tia Cyrilla resgata a magia da época através de sua cesta cheia de sanduíches, bolos, vinho de framboesa, potes de conserva e até mesmo um frango assado. Tudo isso compartilhado com os presentes em uma ceia natalina. Esse conto traz, mais uma vez, a comida como centro afetivo das relações humanas.
Em Chocolate Quente às Quintas-Feiras, de Michiko Aoyama, lemos uma história em que o Café Marble é o ponto de interseção dos personagens de um enredo que coexiste entre Tóquio e Sydney. Nele, o chocolate quente traz uma imagem simbólica reconfortante dos pequenos rituais que se tornam um alicerce para sustentarmos o dia a dia.
A comida na literatura nos convida a porta de uma casa, aparentemente, hospitaleira, porém, não nos deixa entrar. Ficamos na soleira e vemos o anfitrião acender o fogo, preparar a mesa, servir o café (ou o chocolate quente). Sentimos fome, sobretudo desejo, não do alimento em si, mas da promessa de acolhimento que fica em suspenso.
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