
Ouviu um barulho, a princípio sem direção definida. Depois prestou um pouco mais de atenção e percebeu que vinha do outro lado da porta. Era coisa pouca: alguns passos e, depois, apenas um som oco de quando se bate em madeira.
Poderia ser o barulho de qualquer vizinho, pois morava em um prédio onde, em cada andar, havia oito apartamentos. Mas tinha um hábito esquisito de olhar sempre pelo olho mágico quando percebia que as luzes automáticas do corredor tinham se acendido. Fazia pela fofoca, muito provavelmente; era incontrolável agir como uma espécie de porteira do décimo andar.
Assim, olhou pelo olho mágico, porém o que viu não foi o corredor habitual, mas sim um olho colado à porta, retribuindo o olhar.
Se afastou de forma brusca, apavorada. De quem era aquele olho castanho que escrutinava o interior do seu apartamento? Achou que estivesse delirando, mas não queria olhar novamente, como se, ao negá-lo, ele fosse se desmaterializar.
A luz do corredor seguia acesa, dava para ver pela fresta na soleira da porta.
Criou coragem e olhou de novo. De fato, havia um olho que seguia colado. Pensou que, se fosse brincadeira, era a brincadeira de mais mau gosto de que tinha tido notícia. Sentiu raiva.
Do outro lado, a pupila se dilatou.
Sentiu medo e se afastou novamente, dessa vez, foi para o cômodo ao lado, saindo do corredor em frente à porta.
Tentou pensar em algo, mas seu coração batia tão forte dentro do peito que atrapalhava seu raciocínio. O que aquilo significava? Era algum assaltante ou um maníaco que estaria para irromper em sua casa a qualquer minuto? Antes fosse um demônio, mas aqueles não eram olhos de qualquer coisa sobrenatural; eram olhos muito humanos.
A luz do corredor se apagou. Por um segundo, sentiu alívio. Depois veio o pensamento de que era até pior, pois o sensor de movimento não tinha sido ativado, o que significava que a pessoa talvez estivesse parada, mas ainda lá.
Lembrou-se de que, com a luz acesa dentro de casa, era possível ver minimamente algo do interior pelo olho mágico. Se sentiu idiota e foi logo apagar as luzes.
A luz do corredor se acendeu novamente.
Pensou qual era a coincidência irônica de não chegar ou sair nenhum vizinho de casa nesse momento. Qual o senso de humor ácido que a vida tinha para esses acontecimentos?
Lembrou-se dos olhos do Dr. T. J. Eckleburg no outdoor em O Grande Gatsby e se admirou por onde sua mente vagava. Era para isso que servia ler tanto? Para que, em momentos como esses, viessem à mente trechos de livros em vez de soluções factíveis?
Era apenas uma porta que a separava daquele olhar, uma barreira outrora tão sólida, agora parecia se desvanecer e deixá-la indefesa. Reuniu o restante de coragem que tinha e foi até a sala pegar seu celular.
Pensou em ligar para a polícia, mas, criando o roteiro do que falaria em sua cabeça, se sentiu boba. Estava dividida entre o dilema de ser vista como louca ou entrar nas estatísticas de homicídio da cidade.
Resolveu ligar para seu namorado, pois seria mais fácil lhe explicar a situação. O telefone chamou até cair, e ela se lembrou de que ele estava em aula. Deixou uma mensagem em seu WhatsApp, pedindo retorno o mais breve possível. Ela nunca tinha mandado nada assim, esperava que ele a levasse muito a sério.
O silêncio era estarrecedor. Enquanto percebia de forma nítida sua respiração ofegante e seu coração acelerado, ouviu a pessoa segurar a maçaneta com firmeza e girá-la. Tentava entrar no apartamento.
Nesse momento, lhe pareceu que saía de si mesma. Se sentiu aérea, e seu corpo se desmanchava como se fosse feito de areia, causando uma sensação áspera em sua boca e um formigamento nas extremidades. Ficou ali, paralisada, como um animal que se finge de morto para afastar predadores. Era uma estratégia de sobrevivência muito inadequada, mas não conseguia se controlar. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, se sentia mais bicho do que gente.
A maçaneta girou novamente, mas, dessa vez, não encontrou a resistência da fechadura; ela observou a fresta aumentando de tamanho e se transformando em um vão por onde cada vez entrava mais luz em sua casa.
Com a porta escancarada, o que viu a chocou, causando estupefação: era ela mesma, como um espelho, a aguardando. Deu um passo para o lado, de forma automática, a outra avançou e entrou no apartamento, fechando a porta devagar atrás de si, como se indicasse que o que quer que fosse acontecer ali, dizia respeito somente às duas.
Queria dizer ou fazer algo que a tirasse do estupor em que se encontrava, mas era como se corpo e mente estivessem desconectados. Esse “eu holográfico” se aproximou ainda mais e a olhou no fundo dos olhos.
Viu ali um reflexo obscuro, como a superfície turva de um lago que, ao olhar, lhe devolve sua própria imagem. Nesse espelho, lhe atingiu a consciência que conhecer plenamente exigia ser plenamente conhecida e, assim, sustentou o olhar face a face.
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