Influencer Eremita

Fragmentos do que me inspira


As sutilezas do morrer

Era o começo de um dia de trabalho, como outro qualquer, quando o gerente entrou no escritório informando que, ao tentar deixar seu carro para lavar, descobriu que o homem que realizava o trabalho no local, tinha morrido.

Esse homem, que ninguém sabia o nome, havia montado o lava a jato há alguns meses em uma rua perpendicular ao outro lado da avenida em que a empresa ficava e era até irônico que o pequeno negócio, localizado em uma rua de nome Perpétua, tivesse durado tão pouco. Sua esposa, que também não se sabia o nome, foi quem atendeu ao chamado do gerente no portão e trouxe a notícia.

No escritório, a única reação que veio à tona foi a da inconveniência de não ter mais o serviço que era feito a preços módicos. O portador da notícia tampouco sabia informar mais do que isso: não sabia quando, como, nem onde. Não havia perguntado, pois não tinha o menor interesse. Da morte mesmo, nada ficou para refletir, porque alguém que não possui nem nome conhecido não desperta nenhuma compaixão.

A assistente ouvia tudo um pouco consternada, com uma sensação de esvaziamento que não soube compreender. Não conhecia o homem ou, a agora, viúva, suficientemente bem, nesse caso, era melhor ignorar a notícia, silenciando-a, para que assim, quem sabe, parasse de incomodá-la.

O restante do dia seguiu. Assim que o relógio marcou 17h30, a assistente pegou sua bolsa, casaco e garrafa térmica, levantou-se, bateu seu ponto e foi embora.

Ao chegar em casa, viu no quintal, no canteiro próximo à porta de entrada, alguns cravos brancos que precisavam ser regados. Pareciam tristes, murchos daquele jeito, com a terra já muito seca. Ponderou se ainda teria tempo de recuperá-los ou se o esforço seria em vão. Resolveu tentar.

Abriu a porta, deixou suas coisas no sofá e voltou ao jardim pensando nesse desejo de postergar a morte das flores, embora as tivesse esquecido por alguns dias. Logo, retornaram à sua mente o homem que havia falecido e a sensação estranha que a encontrara mais cedo. A notícia a havia acompanhado.

Sentou-se no chão mesmo, próxima ao canteiro, e com muito zelo, afofou a terra deixando-a um pouco mais aerada. Sentiu a primeira lágrima descer por seu rosto e parar em seu maxilar por tempo indeterminado. Era quente e pesada, pois trazia consigo um certo alívio por livrá-la do embotamento do dia.

Misturou ao solo um pouco de adubo orgânico e teve o pressentimento que os cravos voltariam a ser bonitos. Dedicou-se com mais afinco à atividade, porque, por um breve momento, lhe pareceu que para tudo havia conserto.

Outra lágrima desceu, dessa vez muito leve e ligeira. Finalizou o trabalho e, em sua mente, viu o homem falecido repousar logo ali, entre as flores, em um espaço onde sua morte não fosse um inconveniente para ninguém.

Levantou-se devagar, contemplando o que tinha feito, e percebeu que aquele cuidado talvez fosse a única coisa verdadeira que tinha a oferecer diante do entorpecimento do mundo. Agora, ela poderia descansar em paz também.



One response to “As sutilezas do morrer”

  1. Lindo texto!

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